terça-feira, 16 de novembro de 2010

QUEM É ESTA SENHORA?

220.000 contos/ ano 
15.700 contos/Mês
A NOVA CEO da EDP Renováveis... que só vai dar dividendos.
    em 2020
Com uma remuneração anual fixa de 384 mil euros (cerca de 77.000 contos) para 2008, à qual acresce uma contribuição para o plano de pensão e ainda um prémio anual e um prémio plurianual para períodos de três anos, cada um dos quais até uma verba máxima de 100% do salário base. Ou seja, se todos os seus objectivos de desempenho forem cumpridos, Ana Maria Fernandes receberá mais de 1,1 milhão de euros (220.000 contos) no seu  primeiro ano como presidente de EDP Renováveis após a entrada da empresa na bolsa. 
Os valores mencionados constam do contrato de admissão. 
Em 2009 só ganhou 2.240.000,00 €,  160 000, 00€ por mês… 



Comentário de Júlia P. Brito
Por onde anda o nosso dinheiro
São quase 200 salários mínimos ou seja são precisos 200 portugueses com o salário mínimo para perfazerem o vencimento de um só trabalhador. Como é possível ? É pior do que no Futebol. Assim a EDP obriga os clientes a pagar os erros da sua gestão, como nas dívidas incobráveis que quer exigir aos pagadores honestos.
...e depois Portugal continua a aumentar o nº de pessoas pobres (que já vai em 22% da população). Continuamos a perguntar: Que país é este ?
...e estes "ladrões" que tanto se defendiam dizendo que no "tempo da outra senhora" era isto e aquilo. Para quê ? Para justificarem os seus "assaltos" continuados e quase descarados ? Só se um regime dito democrático também é isto ! Não será também por estes exemplos (que vêm de cima) que outro tipo de ladrões anda agora por aí, com grande força ?
      

Para avivar a memória a quem, por norma, não anota!!!


Um  dos motivos porque o Governo se tornou fiador de 20 mil  milhões de euros de transacções intra bancárias......???  
Os de hoje, vão estar como gestores de Banca amanhã,  pois os de ontem, já estão por lá hoje. 

Correcto???? Se  pensa que não, vejamos:

 EIS A LISTA 
:

Fernando Nogueira:
 

Antes -Ministro da  Presidência, Justiça e Defesa

Agora - Presidente do  BCP Angola
 

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José de Oliveira e Costa:


Antes  -Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais

Agora  -Presidente do Banco Português de Negócios  (BPN)


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Rui  Machete:
 

Antes - Ministro dos Assuntos  Sociais

Agora - Presidente do Conselho Superior do  BPN; 

Presidente do Conselho Executivo da  FLAD 

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Armando Vara:
 

Antes - Ministro adjunto do   Primeiro Ministro

Agora - Vice-Presidente do  BCP
 

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Paulo Teixeira Pinto:


Antes - Secretário  de Estado da Presidência do Conselho de  Ministros
Agora - Presidente do BCP (Ex. - Depois de  3 anos de 'trabalho', 

Saiu com 10 milhões de  indemnização !!! e mais 35.000EUR x 15 meses por ano até  morrer...)
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António Vitorino:
 

Antes -Ministro  da Presidência e da Defesa

Agora -Vice-Presidente da  PT Internacional; 

Presidente da Assembleia Geral do  Santander Totta - (e ainda umas 'patacas' como  comentador RTP) 

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Celeste Cardona:
 

Antes -  Ministra da Justiça

Agora - Vogal do CA da  CGD
 
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José Silveira Godinho:
 

Antes - Secretário  de Estado das Finanças

Agora - Administrador do  BES
 
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João de Deus Pinheiro:
 

Antes - Ministro da  Educação e Negócios Estrangeiros

Agora - Vogal do CA  do Banco Privado Português.
 

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Elias da  Costa:
 

Antes - Secretário de Estado da Construção e  Habitação -

Agora - Vogal do CA do  BES
 

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Ferreira do Amaral:


Antes - Ministro das  Obras Públicas (que entregou todas as pontes a jusante  de Vila Franca de Xira à Lusoponte)

Agora -  Presidente da Lusoponte, com quem se tem de renegociar o  contrato.
 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Privatizações em Portugal: Afinal o que mudou?

Vejo com horror a privatização das águas, das auto-estradas e da saúde. Caso se entre numa política cega de privatizações, qualquer dia não há capital português e os grupos económicos estrangeiros tomam conta dos nossos sectores estratégicos."
Mário Soares
Ex-presidente da República
"Não sei se não estaremos a exagerar. Além de privatizar empresas comerciais e industriais, estamos a privatizar serviços públicos que fazem parte da cultura do Estado social. O Estado não deve ser um empresário, mas há serviços públicos que devem continuar a ser da sua responsabilidade"
Vital Moreira
Professor Universitário
Constitucionalista
"(...) o processo de integração internacional da economia portuguesa realizou-se a partir do abandono de qualquer modelo ou estratégia que não fosse deixar actuar livremente a lógica de mercado capitalista. A destruição da agricultura e de largos sectores da economia produtiva muito para além do que haveria de ser o interesse do país e a racionalidade daí dedutível; o desmantelamento sistemático dos sectores públicos estratégicos da economia (comunicações, energia, transportes e outros sectores básicos) através de privatizações traduzidos em fabulosos e obscuros negócios, subtraídos ao escrutínio da opinião pública (...)."
Fernando Rosas
Professor universitário
Depois das nacionalizações da banca e dos seguros, das indústrias vitais e das infraestruturas de transportes no pós-25 de Abril, o processo de privatizações que se iniciou no final dos anos oitenta teve um forte impacto na opinião pública do país e no debate público/privado, constituindo, desde então, uma opção económica praticamente "inevitável" nos programas governamentais.
Os argumentos a favor de uma redução da intervenção do Estado na economia sustentavam que a iniciativa privada conduziria a um crescimento da produtividade e da competitividade das empresas, permitindo, ao mesmo tempo, aliviar o peso da dívida externa portuguesa com as receitas obtidas através das privatizações. De acordo com dados do Ministério das Finanças, entre 1985 e 1995 o Estado Português arrecadou cerca de cinco biliões de euros.
Em Junho de 1999, o Estado português continuava a deter participações em 93 companhias de sectores tão variados como a produção de cereais, gás, petróleo, indústria química, polpa de papel, construção naval, caminhos de ferro, indústria metalúrgica, portos e banca, mas a tendência, usando a terminologia dos economistas, foi a de prosseguir com a "alienação" do património através da segunda fase de privatização de grandes empresas como a Portugal Telecom, a Brisa ou EDP.
Depois das infraestrutras, parecem seguir-se os serviços. A Associação Empresarial de Portugal, um dos mais influentes lobbies económicos do país, não esconde no documento  "Uma nova Ambição para Portugal" - apresentado como um manifesto em prol da manutenção em mãos portuguesas de empresas estratégicas para a economia nacional - a necessidade de privatizar largos sectores da administração pública, nomeadamente a Saúde, a Educação, a Segurança Social e a Justiça, deixando antever a criação de uma legião de 150 e 200 mil desempregados.
Apesar de estar longe destes números, uma das principais medidas previstas na actualização do Programa de Estabilidade do Crescimento Nacional para o período 2003-2006, divulgada recentemente pelo governo, é a redução do emprego nas administrações públicas a uma taxa média anual de 1,5%, o que, na prática, significa a perda de mais de 40 mil postos de trabalho. 
Recentemente, o primeiro-ministro Durão Barroso anunciou, na Assembleia da República, a privatização da EPAL - Águas de Lisboa, vindo ao encontro dos desejos das empresas privadas que reclamavam há muito por uma maior "intervenção" neste sector. Apesar de o Estado deter actualmente mais de 40 empresas no sector das águas e dos resíduos, a venda da Águas de Portugal, que aglomera esse universo, poderia representar um encaixe próximo dos 2,9 mil milhões de euros. Apesar de estar previsto apenas uma venda parcial de acções desta empresa, perfila-se no horizonte a sua privatização total, havendo já empresas estrangeiras, associadas a grupos de grande dimensão, interessadas em tomar posição estratégica no negócio. 
Mas a água é apenas uma das faces visíveis deste processo. O governo pretende igualmente avançar na privatização da Saúde, transformando o Serviço Nacional de Saúde num sistema misto entre público e privado, prevendo também outras modalidades de privatização aplicadas, nomeadamente, à gestão de unidades de saúde. O serviço público de comunicação é outra das áreas que o governo pretende transferir para a iniciativa privada, privatizando um dos canais da RTP e abrindo caminho à extinção da Antena 2.
O programa de governo aponta igualmente para a privatização total ou parcial de empresas públicas em diversos sectores estratégicos como o Instituto de Participações do Estado (IPE), a TAP, a Rede Eléctrica Nacional (REN) ou a Portucel, bem como empresas públicas de transportes terrestres, rodoviários e ferroviários.
Com estas operações o governo prevê arrecadar em 2003 cerca de 1,5 mil milhões de euros. Porém, de acordo com a opinião de alguns especialistas na área financeira e económica, muitas destas empresas são habitualmente subavaliadas e vendidas por um preço abaixo do seu valor real, lesando o Estado e os contribuintes em dezenas de milhões de euros.
Esta factura atinge em particular os trabalhadores. Citando apenas alguns exemplos, ao longo dos últimos anos foram suprimidos oito mil postos de trabalho na EDP, tendo sido anunciada a decisão de reduzir mais cinco mil a médio prazo; sete mil no sector da banca; 4800 na Portucel; e 3300 na Siderurgia Nacional.
Talvez mais preocupante é o facto de a Educação também não parecer escapar a esta "fúria" privatizadora. O crescente discurso em torno do "estatismo" e do  "monopólio da escola pública" parece indicar que uma crescente fatia do "mercado educativo" deverá, nos próximos anos, ser entregue à iniciativa privada. A proposta de institucionalizar os cheques escolares, ou vouchers, admitida pelo ministro da Educação, é talvez um dos primeiros passos nesse sentido.

Opinião pública dividida

O processo de privatizações realizado ao longo da última década permitiu reduzir a dívida pública portuguesa para valores próximos dos restantes países europeus. Em 1997 e 1998, altura em que o processo de privatizações abrandou temporariamente, as receitas obtidas com a venda de empresas públicas ascendiam, respectivamente, a 4,9% e 4,0% do Produto Interno Bruto. Apesar disso, se em 1988 se assumia o compromisso de pelo menos 80% das receitas das privatizações do Estado serem canalizadas para a amortização da dívida, em 1993 esse limite foi reduzido para 40%.
Além das vantagens decorrentes das privatizações na descida dos preços de bens e serviços, que seria estimulada, em princípio, pela livre concorrência, os sucessivos governos têm-se referido à disseminação do capital e à passagem de clientes a accionistas como um dos triunfos do "capitalismo popular". Porém, os números demonstram que cerca de 99% dos accionistas dispõem de menos de 1% do capital social das empresas privatizadas. Então, que vantagens decorrem das privatizações? O que pensam os cidadãos acerca do processo e que melhorias introduziu na sua qualidade de vida? As opiniões recolhidas pela PÁGINA estão longe de ser consensuais.
"Não acho que as privatizações tenham trazido, em geral, melhorias na prestação de serviços. Em muitas empresas o funcionamento continua a estar marcado por um grave defeito da sociedade portuguesa: a desorganização". Esta opinião, porém, não a impede de classificar a própria empresa com nota positiva: "Nos Correios a gestão privada trouxe alguns benefícios em termos de racionalização de meios e julgo que os serviços melhoraram", diz Rita Cardoso, 31 anos, que admite gostar de se manter informada sobre política e economia.
Regra geral, as pessoas inquiridas pela PÁGINA desconhecem este tema e evitam formular uma opinião. Apesar de a maioria estar familiarizada com o termo privatizações - há quem admita inclusivamente ter comprado acções - não consegue reconhecer vantagens ou inconvenientes para o país ou consequências para o próprio futuro. Das cerca de vinte pessoas abordadas, apenas seis soube ou quis responder às questões levantadas pelo jornalista. Porém, uma das ideias mais frequentemente associados ao processo de privatizações é o aumento do desemprego.
"É um facto que as privatizações vieram contribuir muito para o desemprego em Portugal, mas é um processo inevitável para o crescimento do país", diz Nelson Machado, 29 anos, publicitário, que não vê com maus olhos a concessão de um determinado número de serviços a empresas privadas. É o caso da conservação das estradas e auto-estradas que, na sua opinião, o Estado não tem capacidade para manter. Desta maneira, explica, "os privados mantêm as estradas em boas condições em troca de portagens. Penso que é uma medida justa..."
Quem também parece concordar com esta opinião é Raquel Andrade, 26 anos, estudante do curso de Farmácia, para quem as privatizações fazem "todo o sentido" quando o Estado, por falta de meios, não consegue garantir a prestação dos níveis mínimos dos serviços em determinadas áreas. Ao contrário, a privatização de "empresas lucrativas", como as dos sectores da energia, das telecomunicações ou das águas, é um "desperdício". É que dessa maneira, diz, "o Estado e os contribuintes estão a perder receitas que poderiam ser aplicadas em áreas não lucrativas, como a Saúde e a Educação".
Há também quem afirme abertamente que a progressiva privatização da economia não irá trazer quaisquer benefícios para o cidadão. "O princípio de qualquer empresa privada é obter lucro, o que significa que a privatização de determinados serviços, como o fornecimento de água e de energia, levará inevitavelmente a um aumento dos preços", refere Rui Teixeira, 38 anos, funcionário administrativo numa empresa de transportes rodoviários. Por outro lado, argumenta Teixeira, as receitas arrecadadas pelo Estado poderão servir para "melhorar alguns serviços" da administração pública. "Perde-se por um lado, ganha-se por outro. É ela por ela...", conclui com alguma resignação.
Pelo discurso dir-se-ia que estaremos perante um sindicalista, mas não é esse o caso. Nuno Mendes é estudante do 1º ano do curso de Ciências e militante de um partido "realmente de esquerda", como sublinha, preferindo, no entanto, abster-se de revelar qual.  Munido de um espírito crítico quanto baste, afirma que o processo de privatizações em curso representa a "completa desmantelamento do nosso aparelho produtivo" e a "venda de sectores estratégicos por barato" a empresas multinacionais, sejam elas portuguesas ou estrangeiras. "É uma espécie de "polvo" a nível mundial que está a tornar o mundo dependente de uma dúzia de países", diz este jovem.
Nos antípodas deste discurso está José Soares, 57 anos, que considera que o Estado deverá ter um mero "papel regulador" na economia. Na sua opinião está provado que em outros países que já passaram pelo mesmo processo "o nível de vida melhorou", pelo que não vê motivos para interromper o processo. Para este ex-mediador de seguros, actualmente na reforma, o Estado deve privatizar o resto das suas empresas para garantir a "igualdade de oportunidades" no mercado. Tal como está, o sistema é "injusto" porque "beneficia o sector público". O capitalismo, esse, parece ter vindo para ficar. "Já reparou como a China, o país mais comunista do mundo, é hoje provavelmente onde o capitalismo está em maior ascensão? É assim..."


Autoria:

Ricardo Jorge Costa
Jornalista do Jornal A Página da Educação, Março 2003
  

Privatizações

- Entre 1987 e 2008 as privatizações deram ao Estado receitas de €28 mil milhões
- Mas a Divida Pública no mesmo período aumentou 5,8 vezes mais!

por Eugénio Rosa [*]

RESUMO DESTE ESTUDO

No passado, os governos do PSD e do PS utilizaram diversas razões para justificar, perante a opinião pública, a privatização de empresas públicas. A experiencia depois mostrou que essas razões não eram válidas. Neste momento, o governo defende a privatização de mais empresas públicas, com o argumento de que isso é necessário para reduzir a divida pública. No entanto, a experiência e a análise objectiva mostram que não é com a venda de empresas públicas que se consegue reduzir a divida. Muito contrário, até se agrava como se prova neste estudo.

Entre 1987 e 2008, os governos de Cavaco Silva, Guterres, Durão Barroso e Sócrates, procederam à privatização maciça de inúmeras empresas públicas, obtendo uma receita de 28.039,6 milhões de euros a preços nominais. No entanto, no mesmo período, a Divida Pública passou de 19.049,4 milhões de euros para 110.346,6 milhões de euros, ou seja, aumentou 5,8 vezes (+ 91.297,2 milhões de euros). Até 2013, o actual governo tenciona privatizar totalmente cinco empresas (INAPA, Edisoft, EID, Empordef, Sociedade Portuguesa de Empreendimentos) e parcialmente sete empresas (GALP, EDP, TAP, CTT, ANA, Companhia de Seguros Fidelidade-Mundial e Império-Bonança, e EMEF), e arrecadar desta forma cerca de 6.000 milhões de euros. No entanto, em 2013, o governo prevê no PEC: 2010-2013 que a Divida Pública atinja 89,8% do PIB o que corresponde a cerca de 163.860 milhões de euros, ou seja, mais 53.513,5 milhões de euros do que em 2008, e mais 144.811 milhões de euros do que em 1987. É claro o fracasso desta politica de venda de empresas públicas para resolver o problema do aumento rápido da divida pública.

Ao vender empresas públicas o Estado perde uma importante fonte de receitas para o Orçamento do Estado. Só no período compreendido entre 2004 e 2008, o Estado recebeu das empresas com capitais públicos que ainda escaparam à fúria das privatizações dos governos PSD, PSD/CDS e PS, de dividendos e de remunerações de capital, 2.251,1 milhões de euros. É uma parcela significativa desta fonte de lucros que o governo de Sócrates pretende a gora vender aos grandes grupos económicos. É evidente que, se o Estado abdicar desta fonte importante de receitas, o défice orçamental e a divida pública certamente aumentarão.

Muitas das empresas privatizadas eram uma fonte muito importante de receitas para o Estado. Apenas três – a GALP, EDP e PT – obtiveram lucros líquidos no período 2004-2009 que somados atingiram 13.384,9 milhões de euros. E estas três empresas valiam, em 12 de Abril, com base no valor de cotação de bolsa, 30.620,2 milhões de euros. Entre 2004 e 2008, oito grupos económicos privados, quatro deles estrangeiros, que controlam já 43% do capital da Portugal Telecom receberam desta empresa 1.330,8 milhões de euros de dividendos. Na EDP, oito grupos privados que controlam 32,96% do capital da EDP receberam 864,6 milhões de euros de dividendos. Na GALP, também entre 2004 e 2009, dois grupos económico, um parcialmente estrangeiro (Amorim energia) e outro totalmente estrangeiro (a italiana ENI), que controlam 66,68% do capital desta empresa, receberam, de dividendos, 1017,4 milhões de euros.

Face a estes números retirados dos relatórios e contas publicados por estas empresas, as quais representam apenas uma pequena amostra das empresas privatizadas, conclui-se que as privatizações têm representado um fabuloso negócio para os grandes grupos económicos, incluindo estrangeiros, e um mau negócio para o Estado que perdeu assim uma importante fonte de receitas que poderia aliviar as dificuldades orçamentais e reduzir o défice orçamental.

Alex Jilbeto e Barbara Hogenboom mencionam na obra colectiva Big Business and Economic Development que se assistiu nas décadas 80 e 90 do séc. XX, em muitos países a um gigantesco movimento de privatizações maciças de empresas públicas, de desregulamentação e de liberalização, iniciado nos EUA de Reagan e na Inglaterra de Tatcher que depois se estendeu a muitos países com o apoio do FMI e do Banco Mundial que deixou o Estado fragilizado, submetido ao poder económico, incapaz de promover o desenvolvimento e o crescimento sustentado, e que conduziu o mundo à primeira grande crise global. Portugal também não escapou àquele movimento, e o actual governo parece não ter aprendido nada com essa experiencia e com a actual crise pois tenciona continuar a politica de privatização de empresas públicas.
Os sucessivos governos têm utilizado justificações diversas para privatizar as empresas públicas. Os argumentos utilizados pelos governos de Cavaco Silva e Guterres, assim como pelos defensores das privatizações, eram que as privatizações seriam necessárias para criar grupos nacionais competitivos, o que seria bom para o País, e para aumentar a concorrência interna o que beneficiaria os consumidores porque levaria à baixa de preços. O que efectivamente veio a acontecer foi precisamente o contrário. A maioria das empresas privatizadas acabaram parcial ou mesmo totalmente por cair sob o controlo de grandes grupos económicos estrangeiros, por um lado, e, por outro lado, os preços praticados por essas empresas em Portugal são actualmente superiores aos preços médios da União Europeia (combustíveis, electricidade, telefones, etc.).

No PEC: 2010-2013 consta a intenção do actual governo de privatizar total ou parcialmente mais 15 empresas (uma parte significativa das que ainda restam). E a justificação agora é que isso é necessário para reduzir a divida pública. Por isso, tem interesse analisar se este argumento tem alguma coisa de verdadeiro É o que se vai fazer seguidamente.

ENTRE 1987/2008 AS PRIVATIZAÇÕES DERAM AO ESTADO UMA RECEITA DE 28.039 MILHÕES €, MAS A DIVIDA PÚBLICA AUMENTOU 91.297 MILHÕES € (5,8 vezes mais)

Apesar das privatizações maciças de empresas públicas no período 1987/2008, a Divida Pública não parou de crescer. E de uma forma vertiginosa como revelam os dados oficiais seguintes.

QUADRO I – Receitas das privatizações e evolução da Divida Pública em Portugal no período 1987/2013
ANO
Receitas geradas pelas privatizações
Milhões €
DIVIDA PÙBLICA
Milhões euros

GOVERNOS
(que privatizaram)
1987 4,8 19.049,4
Cavaco Silva /PSD
1988 9,1 22.629,6
Cavaco Silva /PSD
1989 393,4 25.866,6
Cavaco Silva /PSD
1990 845,8 30.631,8
Cavaco Silva /PSD
1991 875,8 38.307,8
Cavaco Silva /PSD
1992 1.564,0 39.091,9
Cavaco Silva /PSD
1993 401,1 44.753,9
Cavaco Silva /PSD
1994 938,3 49.081,6
Cavaco Silva /PSD
1995 1.814,2 54.379,0
Cavaco Silva /PSD
1996 2.415,2 57.332,8
Guterres/PS
1997 4.324,6 54.920,8
Guterres/PS
1998 3.853,2 55.485,2
Guterres/PS
1999 1.607,9 58.695,0
Guterres/PS
2000 3.344,5 61.746,4
Guterres/PS
2001 555,6 68.404,1
Guterres/PS
2002 260,4 75.301,0
Barroso-PSD/CDS
2003 164,0 78.852,9
Barroso-PSD/CDS
2004 953,0 84.026,5
Barroso-PSD/CDS
2005 647,7 94.842,5
Sócrates - PS
2006 1.469,6 100.573,6
Sócrates - PS
2007 1.440,6 103.700,8
Sócrates - PS
2008 157,0 110.346,6
Sócrates - PS
Receitas Totais já obtidas, privatizações 1987-2008 28.039,6    
Aumento Divida 1987/2008, em % e em Milhões €   479,3%
( +91.297,2 Milhões €)
 
2013 (Previsão: 89,8% do PIB, PEC:2010/2013)   163.860
Sócrates - PS(?)
Receitas Privatizações previstas, 2010-2013 6.000,0  
Sócrates - PS(?)
Receitas Totais Privatizações, 1987/2013 34.039,6    
Aumento Previsto Divida Pública, 1987/2013 (%)   +760,2%  
Aumento Divida Pública 1987-2013, em Milhões €   +144.810,6  
Fonte: Divida Pública: 1987/1996 : Relatório OE1997; 1997/2008: Eurostat; 2009/2013: PEC:2010-2013
Receitas das privatizações – Sector Empresarial do Estado - Direcção Geral do Tesouro - MFAP


As privatizações realizadas no período 1987/2008, pelos governos de Cavaco Silva, Guterres, Durão Barroso e Sócrates, deram uma receita ao Estado que, de acordo com dados divulgados pela Direcção Geral do Tesouro do Ministério das Finanças, atingiu, a preços correntes, 28.039,6 milhões de euros, Durante esse período, isto é, entre 1987 e 2008, a Divida Pública passou de 19.094,4 milhões de euros para 110.346,6 milhões de euros também apreços correntes, ou seja, aumentou 5,8 vezes (mais 91.297,2 milhões de euros).

Apesar destes resultados, e de ser claro que não é através da venda, muitas vezes aos desbarato, de empresas públicas a grandes grupos económicos que se resolve o problema da divida pública, o actual governo anunciou, no PEC:2010-2013, a intenção de proceder a uma nova vaga de privatizações. Pretende arrecadar desta forma mais 6.000 milhões de euros. Mas apesar desta receita o governo também prevê, no PEC: 2010-2013, que a Divida Pública atinja, no fim de 2013, 89,8% do PIB o que deverá corresponder a cerca de 163.860 milhões de euros, ou seja, mais 53.513,5 milhões de euros do que em 2008, e mais 144.811 milhões de euros do que em 1987. É claro o fracasso desta politica de venda de empresas públicas para reduzir a divida.

AO VENDER AS EMPRESAS PÚBLICAS O ESTADO PERDE UMA IMPORTANTE FONTE DE RECEITA

O quadro seguinte, com dados da publicação "Sector Empresarial do Estado " da Direcção Geral do Tesouro do Ministério das Finanças revela que as empresas públicas, apesar das privatizações maciças, ainda são uma importante fonte de receitas para o Orçamento do Estado.

QUADRO II – Dividendos e remunerações de capital estatutário recebidos pelo Estado das empresas com capitais públicos
ANO
Milhões euros
2004
482,7
2005
120,2
2006
532,8
2007
556,3
2008
559,0
SOMA
2.251,1
Fonte: Sector Empresarial do Estado -2005-2009 - Direcção Geral do Tesouro

Só no período 2004´-2008, o Estado recebeu das empresas com capitais públicos que ainda escaparam à fúria das privatizações dos governos PSD, PSD/CDS e PS, de dividendos e de remunerações de capital, 2.251,1 milhões de euros. É uma parcela significativa desta fonte de lucros que o governo de Sócrates pretende agora vender aos grandes grupos económicos. É evidente, que o Estado se vender esta fonte importante de receitas, o défice orçamental e a divida pública certamente aumentarão. E tenha presente que é uma fonte continua de lucros e não apenas num ano. É como "matar a galinha de ovos de ouro" da fábula popular.

SÓ A EDP, GALP E A PORTUGAL TELECOM DERAM AOS SEUS ACCIONISTAS 13.384,9 MILHÕES € DE LUCROS LIQUIDOS EM 6 ANOS E VALIAM NA BOLSA, EM ABRIL DE 2010, 30.620,2 MILHÕES €

Para que fique claro como tem sido utilizadas as empresas publicas que foram privatizadas, vamos analisar três casos paradigmáticos: EDP, GALP e PT. O quadro seguinte construído com dados constantes dos seus Relatórios e Contas mostra de uma forma clara como elas estão a ser utilizadas pelos grupos económicos para acumular riqueza.

QUADRO III – Lucros Líquidos e capitalização bolsista da EDP, GALP e PT
ANOS
LUCROS LIQUIDOS - milhões €
EDP
GALP
PT
2004 271,6 331,1 623,0
2005 1.971,1 442,0 654,0
2006 940,8 754,8 866,8
2007 907,3 776,6 741,9
2008 1.212,0 116,9 576,1
2009 1.168,0 347,0 683,9
SOMA LUCROS LIQUIDOS (2004/2009) 6.470,8 2.768,4 4.145,7
CAPITALIZAÇÃO BOLSISTA
(Valor da empresa calculada com base na cotação da bolsa de 12/04/2010)
11.866,2 11.232,3 7.521,7
Fonte: Relatórios e Contas -2004/2009, e informação disponível no "site de cada empresa

Em seis anos, os lucros líquidos da EDP somaram 6470,8 milhões de euros; a GALP, no mesmo período, obteve 2.768,4 milhões de euros de lucros líquidos, e a Portugal Telecom 4.145,7 milhões de euros. Só estas três empresas que foram privatizadas deram, no período 2004/2009, lucros líquidos que somaram 13.384,9 milhões euros. Por esta pequena amostra fica-se já com uma ideia clara da importância como fonte de receitas para o Estado que eram estas empresas. E elas são apenas três de um conjunto grande de empresas públicas que foram privatizadas pelos governos de Cavaco Silva, Guterres, Durão Barroso Sócrates. Basta lembrar toda a banca e seguradoras, com poucas excepções, que foram também privatizadas que constituem actualmente para os grupos económicos, incluindo estrangeiros, um instrumento importante de exploração e de acumulação de riqueza. Só a PT distribuiu aos seus accionistas, no período 2004/2009, dividendos no valor de 3102,2 milhões de euros. E cerca de 43% desses lucros foram parar às mãos de apenas 8 grupos económicos, sendo metade estrangeiros.

QUADRO IV – Lucros da PT no período 2004/2009 distribuídos, sob a forma de dividendos, aos grupos económicos
PRINCIPAIS ACCIONISTAS
(grupos económicos)
% Capital da PT pertencente aos grupos económicos
Dividendos recebidos pelos grupos económicos
Milhões €
Dividendos recebidos por grupos estrangeiros
Milhões €
Telefónica (Espanhola) 10% 310,2 310,2
Brandes Investments 7,52% 233,3 233,3
Grupo BES 7,99% 247,9  
Ongoing S. Inv. 8,74% 271,1  
Grupo Visabeira 2,01% 62,4  
Black Rock 2,35% 72,9 72,9
Controlinvest 2,28% 70,7  
Norges BanK 2,01% 62,4 62,4
8 GRUPOS PRIVADOS 43% 1.330,8 678,8
CGD 7,30% 226,5  
Fonte: Relatórios e Contas da PT e informação disponível no seu sítio web

Portanto, oito grandes grupos económicos privados, sendo quatro estrangeiros, receberam dividendos da Portugal Telecom no valor de 1.330,8 milhões de euros (deste total 678,8 milhões de euros de dividendos foram recebidos por grupos económicos estrangeiros). O accionista Estado, por possuir, através da CGD, uma participação de apenas 7,3% recebeu somente 226,5 milhões de euros de dividendos. Situação semelhante também se verificou na GALP e na EDP, assim como em todas as outras empresas que foram privatizadas, as quais deixaram de ser fonte de receitas para o Orçamento do Estado, e passaram a ser para os grupos económicos privados um instrumento importante de acumulação de riqueza e de domínio sobre o poder politico.

QUADRO V – Lucros da EDP e da GALP no período 2004/2009 distribuídos, sob a forma de dividendos, a grupos económicos
EDP
GALP
Accionistas
% Capital
da EDP
Dividendos recebidos
Milhões €
Accionistas
% Capital
da GALP
Dividendos recebidos
Milhões €
Iberdrola 9,50% 249,2 Amorim Energia 33,34% 508,7
Caja Ahorros Astúrias 5,01% 131,4 ENI 33,34% 508,7
Jose Mello, SGPS 4,82% 126,4 2 GRUPOS PRIVADOS 66,68% 1017,4
Grupo BCP 3,39% 88,9      
BES 3,05% 80,0      
Picket Asset Management 2,86% 75,0      
Sonatrach 2,33% 61,1      
International Petroleum Investments 2,00% 52,5      
8 GRUPOS PRIVADOS 32,96% 864,6      
PARPÚBLICA 20,49% 537,5 PARPÚBLICA 7,00% 106,8
CGD 9,50% 249,2 CGD 1,00% 15,3
ESTADO 29,99% 786,7 ESTADO 8,00% 122,1
Fonte: Relatórios e Contas - 2005-2009 - EDP e GALP

Entre 2004 e 2009, na EDP oito grupos económicos privados (Iberdrola, Caja Ahorros Astúrias, José de Mello, BCP, BES, PAM, PIPIC), receberam 864,6 milhões de euros de dividendos e na GALP, durante o mesmo período, dois grupos económicos privados (Amorim Energia e a italiana ENI) receberam também de dividendos 1017,4 milhões de euros. O Estado, devido às participações que ainda tem nestas duas empresas, através da PARPÙBLICA e da CGA, recebeu na EDP 786,7 milhões de euros de dividendos, e na GALP 122,1 milhões de euros no período 2004 e 2009. Mas é uma parte destas participações já minoritárias que, apesar de tudo, ainda dão elevados lucros, que o actual governo pretende privatizar até 2013.

Finalmente há ainda um outro aspecto que interessa também referir. É o valor actual destas três empresas com base no valor de bolsa. De acordo com as cotações da bolsa de 12.4.2010, só estas três empresas (EDP, GALP, PT) valiam 30.620,2 milhões de euros (quadro I), portanto certamente um valor muito superior ao obtido pelo Estado com a sua privatização

Não resta dúvida que os grupos económicos fizeram um grande negócio com a privatização destas três empresas. Elas são uma fonte permanente de elevados rendimentos anuais para eles, por um lado, e, por outro lado, quando quiserem vender obterão por elas certamente um valor gigantesco. Para a maioria da população as privatizações das empresas publicas, transformou estas em instrumentos importantes de exploração a que está submetida, através dos preços elevados que têm de pagar pelos bens essenciais produzidos por essas empresas.

UMA ONDA DE LIBERALISMO E DE PRIVATIZAÇÕES QUE ATINGIU E AINDA ATINGE PORTUGAL

Alex Jilbeto e Barbara Hogenboom na obra colectiva Big Business and Economic Development verificam que nas décadas 80 e 90 do séc. XX se assistiu, em muitas partes do mundo, a um gigantesco movimento de privatizações maciças de empresas públicas, acabando muitas destas empresas por serem adquiridas imediata ou pouco tempo depois por grupos multinacionais. Só entre 1988 e 1995, estes autores calcularam que num total de 88 países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, cerca de 3.801 empresas públicas acabaram por serem vendidas a grupos multinacionais. Isto também se verificou em Portugal

Este movimento global de privatizações em larga escala, de desregulamentação e de liberalização económica e financeira, que se verificou inicialmente nos EUA com Reagen e na Inglaterra com Tatcher, que rapidamente se alastrou por quase todo o mundo, apoiada pelo FMI e pelo Banco Mundial, com base nos mitos da auto-regulação e da eficiência dos mercados, como os instrumentos mais adequados para fazer uma afectação eficiente dos recursos e para garantir um crescimento económico elevado, deixou os Estados, os países e as populações totalmente indefesas , mas permitiu aos grandes grupos multinacionais consolidar o seu domínio à escala global, e impor uma globalização capitalista que agravou as desigualdades a uma escala nunca antes vista, e que conduziu o mundo capitalista a uma das suas maiores crises da sua história.

Portugal não conseguiu escapar a esta onda de neoliberalismo, de desregulamentação, de privatizações maciças, sendo os sucessivos governos meros instrumentos desta politica neoliberal global, que aumentou o poder dos grandes grupos económicos no nosso País deixando o Estado profundamente enfraquecido, submetido ao poder económico e incapaz de defender os interesses da população trabalhadora e de promover o desenvolvimento e o crescimento económico sustentado. Infelizmente, o actual governo parece não ter aprendido nada com a experiencia do passado e com a grave crise actual, e teima em continuar a politica de privatizações que não resolve os problemas, até os agrava e enfraquece ainda mais o poder de intervenção do Estado.

O governo actual ao tencionar continuar a politica de privatizações, significa que Estado vai abdicar de um instrumento importante de politica económica e de defesa dos interesses da população e do País, ficando ainda mais à mercê e submetido ainda mais ao poder dos grandes grupos económicos, permitindo a estes controlarem os instrumentos mais importantes no mundo actual, por um lado, para imporem um crescimento económico de acordo com os seus interesses e, por outro lado, para submeterem a maioria da população a uma exploração desenfreada com base em preços leoninos de bens essenciais, como são a electricidade, os combustíveis, as telecomunicações, etc., que se assiste neste momento em Portugal.
14/Abril/2010 
FONTE:
 [*] Economista, edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Novo recorde: juros da dívida pública batem nos 7,016%

Taxa das obrigações a 10 anos não pára de subir

Os juros da dívida pública portuguesa não param de aumentar. A taxa cobrada pelos investidores para comprarem obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos atingiu os 7,016%.

Durante a manhã desta terça-feira, o valor dos yields atingiu um pico nos 6,976%, mas voltou depois a recuar para a casa dos 6,92%. No entanto, perto das 17 horas, assistiu-se a nova escalada, com o valor a ultrapassar o limite dos 7%, o mesmo que tinha sido apontado pelo ministro das Finanças como o limiar a partir do qual poderia ser preciso pedir a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Recorde-se que foi também quando os juros das obrigações gregas a 10 anos atingiram os 7% que a Grécia se viu forçada a pedir auxílio aos parceiros europeus e ao Fundo.

Depois de Teixeira dos Santos ter feito estas declarações, outros membros do Governo vieram já desdramatizar. O próprio primeiro-ministro afirmou, numa entrevista à TVI, que não seria necessária a ajuda do FMI e que Portugal tem capacidade de resolver os seus problemas sozinho.

Esta terça-feira foi a vez de o ministro da Economia, Vieira da Silva, dizer também que o facto de os juros tocarem este valor não espoleta automaticamente a vinda dos técnicos do Fundo a Portugal.

A questão é que Portugal não pode suportar este nível de juros durante muito tempo. Se os investidores mantiverem este nível de exigências, o país pode deixar de conseguir suportar os encargos e entrar assim em incumprimento.


Como Portugal pode sair da crise em dez anos por Ana Rita Guerra, Publicado em 12 de Maio de 2009

No dia em que a crise mundial estiver oficialmente ultrapassada, Portugal não estará mais perto de sair dela. O motivo é simples: a crise faz parte do modo de operação da economia portuguesa. Para alterar o rumo do país, é preciso modificar radicalmente o modelo de funcionamento. A alternativa, se nada for feito, é sair "da crise conjuntural com os problemas estruturais agravados" por causa as opções de política económica que estão a ser tomadas (as grandes obras públicas, por exemplo), escreveu o ex-ministro das Finanças, Eduardo Catroga, numa carta que enviou ao governo. Qual é, então, a receita para tirar Portugal da crise nos próximos dez anos?

"Portugal precisa é de poupar, não de gastar, para no futuro conseguir investir mais e melhor". A fórmula é de José Silva Lopes, ex-governador do Banco de Portugal e ex-ministro das Finanças. O economista concorda em termos genéricos com a proposta de Eduardo Catroga no "grito de alerta" publicado no último sábado.

Segundo este economista, o governo socialista deve ouvir o que um grupo de economistas "interessados e preocupados" têm a dizer sobre os grandes investimentos. "Seria bom ter muita gente a pensar - não só os economistas, mas engenheiros, arquitectos, advogados - em quais os investimentos que menos vão sobrecarregar as gerações futuras", acrescenta Silva Lopes.

Uma ideia partilhada por Miguel Cadilhe, para quem o mais importante é "conter a despesa corrente". Com um toque de ironia, o ex-ministro das Finanças defende uma solução de três passos: "Um, reformas estruturais; dois, reformas estruturais e três, reformas estruturais".

Será preciso reestruturar tudo, da Justiça ao trabalho, passando por todos os domínios da despesa pública, e repensar o endividamento externo. "Não temos feito grandes reformas nos últimos anos", lamenta Cadilhe, lembrando que o aumento da competitividade requer novos formatos.

Também o presidente da Martifer, Carlos Martins, considera ser preciso repensar os gastos megalómanos. "Estamos a correr o risco de hipotecar o futuro", afirma, destacando que o nível actual de endividamento "é preocupante", e que até os casos que eram recomendados como um exemplo a seguir por Portugal - como a Irlanda - acabaram por "afundar completamente".

O próprio Eduardo Catroga, que garantiu ao i não querer liderar nenhum grupo, mas sim suscitar a discussão, recomenda que Portugal troque volume por qualidade no que toca a investimentos. "A capacidade de endividamento externo não é ilimitada, e exige escolhas", frisou Catroga no seu alerta. "Governar é hierarquizar prioridades, e depois optar".

investir na geografia "Portugal deve servir de porta de entrada de produtos na Europa e particularmente na Península Ibérica, aproveitando a sua posição no Atlântico". O professor do ISEG João Duque acredita que o país tem que apostar na capacidade transformadora e usar aquilo que tem de melhor: as pessoas e a inovação. "Tenho dúvidas sobre as grandes obras", opina o especialista, declarando: "Não é por essa via que vamos lá". Para sair da crise também é acertado apostar no turismo, remata.

mais justiça social O remédio é tudo menos novo, mas parece ganhar novo fôlego num momento em que os bairros problemáticos não saem dos telejornais.

O professor catedrático de Economia na Universidade de Coimbra, José Reis, sustenta que "o que ditará o desenvolvimento económico dos próximos dez anos é o combate à desigualdade".

Este economista lembra que o país tem vivido acima das possibilidades, graças ao endividamento excessivo, e que as entropias geradas pelas desigualdades "prejudicam o caminho para a prosperidade, perpetuando os desequilíbrios que existem há décadas".

Além disso, frisa, "temos de olhar para os resultados das políticas públicas que, no fim de contas, são salários indirectos para muitas pessoas". Isto é, "melhor saúde e educação só podem ter um efeito positivo na produtividade e no bem-estar de toda a população a médio/longo prazo", conclui.

proteger as boas ideias "Portugal não percebeu muito bem a mudança actual de paradigma, na qual a propriedade intelectual é de importância vital". António Câmara, presidente de uma das tecnológicas portuguesas mais bem sucedidas lá fora, defende que é preciso reforçar a protecção da inovação e a massa crítica de talentos. "Temos de criar 100 a 200 novas empresas de base tecnológica", acrescenta o CEO da YDreams, sublinhando que é necessário "criar bom ambiente para a juventude talentosa". Algo que, na sua opinião, está nas mãos do governo.

Diogo Vaz Guedes, presidente da Aquapura, também destaca o papel que a inovação tecnológica pode ter. Embora ressalve que "é fácil" fazer críticas ao que poderia ter sido feito e não o foi nos últimos anos, o empresário recomenda que a próxima década se centre na "flexibilização". Vaz Guedes atenta ainda que Portugal pode capitalizar na "boa imagem" que angariou em sectores de valor acrescentado, como a tecnologia, o turismo, a vitivinicultura e as energias renováveis.